Belo Horizonte, 16 de dezembro de 2018.
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Por Mônica Bergamo
Estudante profissional
Fã de Pagu, a nova presidente da UNE, Virgínia Barros, 27, estuda letras depois de abandonar economia e passa hoje um bom tempo fora das salas de aula

Folha de São Paulo (16/06/2013)

 

Nas hostes do movimento estudantil, Virgínia Barros, 27, a nova presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), ou presidenta, como ela faz questão de acentuar, é conhecida como “baixinha” — tem 1m53 — e “nervosinha”.

Como Lula, Virgínia também é de Garanhuns, Pernambuco. Mas se engana quem pensa que Vic, como gosta de ser chamada, faça o gênero clássico da militância “barbuda de saia”. 

Verdade que apanhar da polícia na rua ela já apanhou. E isso comenta com orgulho. Também já ocupou reitoria. E diz que se sente à vontade com um megafone nas mãos.

Che Guevara ela admira, claro.  

Vic participou das primeiras manifestações pelo passe livre de ônibus em São Paulo, pacificamente, como faz questão de ressaltar. “A UNE se solidariza com a causa, embora repudie vandalismo e excessos da polícia.” Mas não se diz a favor da tarifa zero, como pede o Movimento Passe Livre. “Sempre de-fendemos o meio passe para estudante, essa é uma bandeira histórica”, desconversa. 

Vic começou neste ano o curso de letras na USP, mas mal encontra tempo para frequentar a sala de aula. Nos últimos três dias, por exemplo, passou por São Paulo, Pernambuco e Minas Gerais. Antes, tentou economia, mas largou no meio. “Queria fazer carreira diplomática e desisti. Agora quero ser professora acadêmica.”

A verdade é que estudar quase sempre foi um problema para os líderes da UNE, pelo menos enquanto estiveram à frente da entidade. Muitos trancam matrícula. O ex-ministro Orlando Silva, por exemplo, primeiro presidente negro da UNE (eleito em 95), nem concluiu o curso de direito.

Vic se define: “Eu sou política”.

A UNE existe desde 1937. Constituiu um dos principais focos de resistência à ditadura e liderou os caras-pintadas no governo de Fernando Collor. José Dirceu, José Serra, Franklin Martins e Lindbergh Farias são alguns de seus ex-militantes ilustres.

Hoje a instituição arrecada cerca de R$ 800 mil anuais através da venda de 400 mil carteirinhas. Mas, com a lei de meia-entrada, em tramitação no Senado, ganharia prioridade na emissão do documento, o que multiplicaria consideravelmente seus rendimentos —o universo total de estudantes brasileiros é de 7 milhões.

Filiados ao PCdoB ocupam a cadeira da presidência da UNE há mais de duas décadas, embora Vic insista em dizer que a gestão da entidade é apartidária. A estudante se define marxista. E o que é ser marxista nos dias de hoje? “É lutar contra o fim das opressões. Mudar esse sistema econômico desigual, gerando oportunidades para todos.” Ser comunista, segundo ela, “é não aceitar o mundo como ele se apresenta”.

Ela promete que o novo prédio da UNE, no Rio, assinado por Oscar Niemeyer, estará finalizado em 24 meses. A verba de R$ 30 milhões, concedida durante o governo Lula como indenização pelos crimes da ditadura, está na conta da entidade desde o final de 2010. O prédio terá 13 andares e também um centro cultural. 

Vic não descarta a hipótese de utilizar alguns andares para locação comercial. Seria uma forma de a UNE ganhar autonomia em relação às verbas públicas e, assim, livrar-se de vez das acusações de peleguismo e aparelhamento.

Os principais eventos da entidade são patrocinados por órgãos ligados ao governo federal, que conta com o PCdoB como aliado estratégico. O custo do congresso de 2011, por exemplo, foi estimado em R$ 4 milhões e contou com o patrocínio de empresas como a Petrobras.

Mônica Bergamo
Jornalista
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