Belo Horizonte, 16 de dezembro de 2018.
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Por Heitor De Paola
O significado revolucionário da palavra paz
A paz eterna é um sonho fútil (General George S. Patton)

Nasci e cresci na cidade de Rio Grande, RS, único porto de mar do Estado. Era fácil fazer contrabando e na minha adolescência só fumávamos cigarros americanos comprados direto dos navios estrangeiros, em sua maioria Escandinavos, dos quais comprávamos cigarros e fumos para cachimbo, whiskys escoceses, irlandeses e ame-ricanos. Comprávamos para uso pessoal e não fazíamos concorrência com os grandes contrabandistas que por isto nos deixavam em paz. 

No final dos anos 50 e início dos 60, começaram a chegar navios russos. As médicas eram loiras deslumbrantes, russas ou ucranianas (em to-dos os navios soviéticos eram médicas e não médicos). 

O contrabando que eles ofereciam era outro: propaganda do enorme desenvolvimento da URSS, Sputnik, Laika e Gagarin. Recorde de produção industrial e agrícola. Os folhetos que levávamos eram em bom português ou espanhol. Alguns, mais sofisticados, eram em inglês. Diferentemente do que estávamos acostumados, os navios eram imaculadamente limpos. 

Estávamos todos revoltados pela invasão da Hungria em 56. Sobre isto eles tinham uma explicação que começou a ‘virar’ nossa cabeça: os imperialistas americanos tinham colocado um governo títere em Budapest para criar ou-tra base para o ataque iminente à URSS e demais ‘democracias populares’. Havia na Hungria um conluio entre a CIA e a Igreja Católica e o asilo concedido na Embaixada Americana ao Cardeal József Mindszenty que estava preso há oito anos com pena perpétua por oposição ao comunismo, comprovavam esta conspiração. Mindszenty já havia sido preso pelos nazistas por oposição ao nazismo. Libertado no governo de Imre Nagy que foi rapidamente derrubado pelos tanques russos, refugiou-se na Embaixada dos EUA, onde viveu 15 anos. Todos os envolvidos em sua prisão e processo foram excomungados pelo Papa Pio XII.

Outra mensagem era a denúncia feita por Kruschëv dos crimes de Stalin. Quem não confiaria num governo que havia sido ‘humanizado’ e só lutava pa-ra preservar a paz e a construção de um socialismo expurgado da terrível ditadura stalinista? Este socialismo ‘humanizado’ criaria as verdadeiras condições para a liberdade dos homens se fosse deixado em paz!

Pela primeira vez eu ouvi a tese de que a URSS precisava de paz para desenvolver sua democracia socialista. Quem queria guerra eram os imperialistas e o complexo industrial-militar americano que precisava construir cada vez mais armas para tentar evitar o iminente colapso total do capitalismo previsto por Marx e Lenin. 

A paz só seria alcançada com a vitória total do socialismo em todos os países do mundo. Os países já socialistas eram os ‘países amantes da paz’ e só com o socialismo será alcançada a paz mundial eterna, quando os imperialistas fomentadores de guerra fossem derrotados.

Em suma: socialismo é paz, capitalismo é guerra. 

Nenhum de nós acreditou imediatamente nestas balelas, mas o vírus estava inoculado e se fez sentir de ma-neira diferente e em graus variáveis entre nós. Eu fui dos mais afetados, pois simultaneamente, começava a ser fisgado pela política estudantil. Começavam a ser convocados os congressos pela paz, onde pontificavam os grandes intelectuais de todo o mundo. Mas isto é tema para o próximo artigo.

Heitor De Paola
hdepaola@terra.com.br
Médico, escritor e analista político.
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