Belo Horizonte, 16 de dezembro de 2018.
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Por Hamilton Bonat
Das ruas, um susto nos marqueteiros

A presidente ficou emburrada. Qualquer um ficaria, pois a Copa, alardeada como nossa grande conquista, transformou-se em milhares de vaias no superfaturado Mané Garrincha, praça esportiva que é um luxo só. Ao seu lado, o impoluto Joseph Blatter, tal qual um arauto da moralidade, teve ainda o descaramento de dar um pito nos brasileiros, recomendando fair play, belo slogan sob o qual se camuflam as falcatruas da esperta FIFA, a senhora que está faturando bilhões de dólares, arrancados, por meio de impostos, dos trabalhadores brasileiros.

Agora teremos arenas com cadeiras confortáveis, capazes de acomodar macios bumbuns de primeiro mundo. Enquanto isso, em salas de aula terceiro-mundistas, nossas crianças continuarão condenadas à ignorância, de forma a, no futuro, contentarem-se com variados tipos de bolsas e a considerarem normal conviver com saúde de péssima qualidade, com estradas assassinas e sem segurança pública.

Mas as vaias não se esgotaram no Mané Garrincha. Espraiaram-se do norte ao sul. Os marqueteiros oficiais, que consomem boa parte dos impostos que pagamos, ficaram assustados. O que teria dado errado? 

Tudo começou com uma pressão do até então pouco conhecido Movimento Passe Livre (MPL). Segundo seus dirigentes, trata-se de um movimento social que luta por um transporte verdadeiramente público. A ideia pareceu boa ao governo federal. Seria mais uma oportunidade para desgastar o governador de São Paulo, um oposicionista. O MPL paralisaria a maior cidade do país. Provocaria o caos, obrigando a polícia a agir, enquanto a imprensa replicaria, sem cessar, a sua “truculência”. Um problemão para Alckmin. Tudo por causa de 20 centavos. Um plano quase perfeito.

Mas o governo não contava com a adesão de milhões de jovens pelo Brasil afora, até mesmo em estados comandados por seus aliados. Esqueceram-se, o governo e seus marqueteiros, de que a juventude mais intelectualizada do país vinha acompanhando o que acontecia. Sentindo que sua inteligência estava sendo insultada, decidiu ir às ruas. Creio que considerou um acinte o fato de o partido que nos governa comemorar seus dez anos no poder. Ora, se em dez anos não conseguiu resolver os problemas que nos afligem e, ainda, por total falta de austeridade, está trazendo de volta a famigerada inflação, deveria ter sido econômico, coisa que não consegue, ao menos nas comemorações. Essa mesma juventude não se deixou iludir pela propaganda, não esqueceu dos vários escândalos de corrupção sem julgamento, muito menos da PEC 37, tentativa de um deputado da situação para aniquilar os poderes investigativos do ministério público sobre os políticos. 

Em sua recente fala à nação, nossa mandatária repetiu promessas, velhas de uma década. E, ainda, para resolver o problema do SUS, reiterou sua pretensão de importar médicos, outra bofetada no rosto dos nossos competentes e dedicados profissionais de saúde.

Talvez esses mesmos jovens que foram para as ruas até sim-patizem com o slogan marqueteiro do governo: “País rico é país sem pobreza”. Entretanto, sua opção parece ser outra: “País rico é país sem corrupção”. Entendeu, Mr Blatter? 

Hamilton Bonat
General da Reserva
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