Belo Horizonte, 16 de dezembro de 2018.
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Por A.C. Portinari Greggio
Não apostem na “primavera” da Síria
A alternativa ao Presidente Al-Assad é o caos e o fanatismo.

Quem pretende estabelecer regimes democráticos no Oriente Médio, ou (1) ignora o que é democracia, ou (2) não sabe nada sobre o Oriente Médio, ou (3) age de má fé.

Pergunta: Qual das três opções se aplica à “Primavera Árabe”? Resposta: As três.

Para começo de conversa, essa “primavera” é erro de tradução. Os árabes a denominam thawraat al-‘arabiyah, que significa “revoltas do mundo árabe”, as quais não têm necessariamente as cores nem os perfumes da primavera. Ao contrário, as tais “primaveras” só têm deixado caos, terror, destruição e fanatismo no seu rastro.

As revoltas foram provocadas e manipuladas do exterior. Mas a provocação não teria tido efeito não fossem os crônicos problemas internos dos respectivos países, agravados pelo fator demográfico.

A população total dos países árabes, que em 1950 era de 67 milhões, em 2012 já havia quintuplicado, ultrapassado a casa dos 360 milhões. O impacto de quase 300 milhões de novos habitantes na mesma região, com escassos recursos de água e terra arável, sem estrutura industrial que, como na Índia e na China, possa absorver os novos contingentes de mão de obra, é assombroso desafio, para o qual nenhum país estava preparado. Devido ao crescimento exponencial, a proporção de jovens tende a aumentar, e esse é um dos principais fatores da revolta. Cerca de 23% da população dos países árabes tem 15 a 24 anos; e nessa faixa etária, 60% não obtêm nem tem perspectiva de obter emprego.

Por paradoxal que pareça, a causa desse desastre está no próprio remédio que os patrocinadores da “Primavera Árabe” pretendem obrigar os países árabes engolir: “democracia”. Sim, porque o conceito de democracia desses patrocinadores é o mesmo aplicado no Brasil – e em Cuba, e na Venezuela, e noutros países democratizantes. A democracia deles consiste em forçar a igualdade social por meio de nivelamento por baixo, dirigismo econômico e assistencialismo. Foi exatamente isso que os países árabes fizeram sob os mais diversos regimes políticos, desde a  Jamahiriyah de Mu’ammar Qadhafi (exemplo extremo de “democracia participativa”) até as monarquias tradicionais, como a Arábia Saudita. Todos estabeleceram vastos programas de “inclusão social”, subsídios e serviços gratuitos – habitação, saúde, educação, renda mínima, empregos em entidades estatais, etc., cujo efeito foi a rápida multiplicação das camadas mais incapazes da população, as quais aumentam o número de dependentes de ajuda governamental, num catastrófico processo de retroalimentação. Como disse um observador, “essas medidas consolidaram regimes autoritários, mas a tremendo preço. Paralisaram a política e sobrecarregaram os países árabes com economias improdutivas e despesas insustentáveis. O descontrolado crescimento demográfico, aumentando continuamente as despesas dentro de economias incapazes de crescer, funcionou como bomba de tempo.”.

Em 1950 a Síria tinha 3,35 milhões de habitantes. Em 2012, mais de 22 milhões. Nos últimos 20 anos, a população duplicou. Mais de 50% dos sírios têm menos de 25 anos. A incapacidade da economia de criar novos empregos atingiu duramente os jovens. Na faixa entre 15 e 24 anos, que compreende 23% da população total, o desemprego crônico, antes da “Primavera”, era de mais de 30%.

O desastre demográfico foi agravado pela longa estiagem que afligiu o interior da Turquia, o norte da Síria e o leste do Iraque entre 2006 e 2009, cujos efeitos se prolongam até hoje. Na Síria, cerca de 200 mil famílias camponesas abandonaram suas terras e migraram para as cidades, onde agravaram o crônico problema das favelas nas periferias, já superpovoadas com centenas de milhares de refugiados do Iraque e de outros países vizinhos.

Como consequência da guerra, o PIB caiu de 55 bilhões de dólares para apenas 25 bilhões, mais de 50% em poucos meses. Esse quadro sombrio induz muita gente no Ocidente a apostar no iminente fim do Partido Ba’ath e do governo do Presidente Bashar Al-Assad. É difícil prognosticar, mas uma coisa é certa: o governo sírio não cairá “no grito”, como aconteceu no Egito e na Tunísia. Apesar das baixas e de algumas deserções, as Forças Armadas continuam coesas e dispostas a defender seu país. E o governo sírio não se deixa intimidar pela barragem de propaganda e desinformação, nem pelas sanções impostas pela oligarquia mundial.

Desde a era do primeiro califado, a Síria tem sido uma espécie de pivô político do Mundo Árabe. Sua estabilidade, por si mesma dificílima de manter, é a chave do precário equilíbrio de todo o Oriente Próximo. Iludidos pelo fato da Síria ser país relativamente pequeno em território e população, aprendizes de feiticeiro ocidentais lucubram fórmulas para domesticá-la e enquadrá-la nos esquemas globais da oligarquia.

Mas o Oriente Médio não obedece a fórmulas. Sua política é complexa demais, porque tudo o que ali acontece está radicado em milênios de história. No Ocidente, a História tem sido propositadamente negligenciada nos currículos escolares. No Oriente ela continua viva, não apenas nos livros, mas na memória dos povos e no dia-a-dia das pessoas, cujas vidas são condicionadas ou inspiradas por coisas que aconteceram séculos atrás.

 

População da Síria  
Sunitas árabes 60%
Alauítas 12%
Curdos 9%
Cristãos ortodoxos 9%
Armênios 4%
Drusos 3%
Árabes xiitas 2%
Outros 1%

Mas por que a história é tão importante no Oriente Médio? É um enigma para os observadores do Ocidente. Vejam, por exemplo, o latente conflito entre xiitas e sunitas. É impossível compreendê-lo sem conhecer – e conhecer não apenas por leitura, mas com empatia e sentimento – incidentes históricos ocorridos nos séculos VI e VII. Para xiitas e sunitas, o que aconteceu há mais de 1.300 anos continua a repercutir em suas vidas, a condicionar suas paixões e atitudes políticas, seu modo de enxergar o mundo, e constitui elemento central de suas identidades. Esse termo – identidade – é a chave da psicologia daqueles povos. A religião não é apenas artigo de fé. Ser cristão, ou muçulmano, ou pertencer a qualquer religião ou seita, não é só praticar esse ou aquele culto, mas pertencer geneticamente à grei muçulmana, cristã, etc., como algo que está no sangue. Assim como a religião, a pátria também está no sangue. Ser libanês, sírio, iraqueano, egípcio, etc., não é mera questão de passaporte, é marca indelével da identidade, que vai do berço ao túmulo, e não pode ser apagada ou esquecida. Na mente oriental, a ideia do “cidadão” sem pátria, sem família, sem sexo, sem história e sem religião, inventada pela intelectualha ocidental como modelo do novo ser humano globalizado, é a mais monstruosa das aberrações.

Alguns antropólogos descrevem as sociedades orientais como tribais, e os próprios árabes têm um provérbio que resume essa índole exclusivista: “Eu contra meus irmãos, eu e meus irmãos contra nossos primos, nossa família contra a tribo, nossa tribo contra o mundo.” Mas essa definição é defeituosa, porque tribo tem conotação de comunidade primitiva que, pela suposta lei do progresso histórico fatalmente deve evoluir para sociedade civilizada. Ora, não queiram ensinar civilização ao Berço da Civilização. Em vez de tribo, digam nação. Tribo é como o cacto, espinhoso e fechado em si. Nação é como a árvore, que dá sombra, frutos e flores. As magníficas civilizações do Oriente Médio foram todas construídas por nações cujos membros eram unidos pela identidade emanada do sangue comum e da tradição histórica. Outros povos se associavam, compartilhando dos seus frutos e da sombra amiga. Mas as civilizações só duravam enquanto a Nação dominante se mantinha íntegra. E decaíam a partir do momento em que se acomodava, intelectualizava-se, seduzia-se com sofistas, charlatães e profetas, permitia a crítica de suas tradições, relaxava seu espírito de identidade, esquecia sua história, promiscuía seu sangue, perdia a fé nos seus valores.

Os provocadores propalam que existe, no Oriente, ódio fanático contra o Ocidente. Muitos acreditam, mas poucos perguntam: qual Ocidente? Certamente ninguém odeia a cultura clássica, nem o espírito que um dia engrandeceu o Ocidente. Na verdade, quem odeia o Ocidente é a própria oligarquia ocidental. Apátrida, usurpadora e renegada, o que ela entende como “Ocidente” é o sarapatel ideológico da Escola de Frankfurt, que hoje domina os seus meios políticos, acadêmicos e midiáticos. É esse falso Ocidente, bolado pela intelectualha, que o Oriente sem dúvida detesta.

A Síria moderna surgiu em 1946, quando se tornou independente da França. Entre 1946 e 1963, passou por três guerras, dezenas de revoltas internas, seis golpes militares, vinte quedas de gabinetes civis e quatro constituições. Aproveitando-se da confusão e apoiados pela União Soviética, em 1957 os comunistas preparavam-se para tomar o poder. Desalentados, em 1958 os sírios negociaram a anexação do país pelo Egito. Conta-se que nessa ocasião o Presidente sírio Shukri al-Quwatli teria dito a Gamal Abdel Nasser: “Acabas de adquirir uma nação de políticos. Metade dos sírios acham que são líderes nacionais, 25 por cento que são profetas, e pelo menos 10 por cento, que são Deus.”

Em 1963, o Partido Ba’ath tomou o poder, mas o país continuou mergulhado no caos. Só se estabilizou em 1970, quando o General Hafez al-Assad impôs um governo decididamente militar, no qual a hierarquia e a disciplina substituíram a política.

Hafez al-Assad governou a Síria até sua morte em 2000. Foi sucedido por seu filho Bashar al-Assad, que está no poder até hoje. Não é fácil manter regime estável no Oriente Médio, e a fórmula não teve nada de original: a conquista dum império começa na aldeia onde se nasce. Hafez al-Assad era alauíta. Os alauítas são típico exemplo de nação com fortíssima identidade: além de etnicamente homogêneos (alguns autores acham que são descendentes dos antigos hititas), são todos membros da facção xiita cujo nome deriva de Ali, o quarto califa. Ótimos combatentes, disciplinados, leais, fechados, inexpugnáveis nas suas montanhas, os alauítas, ao longo de séculos, raramente se envolveram em política, mas sempre souberam defender-se ferozmente. Com eles, Hafez al-Assad construiu eficiente máquina militar, política e administrativa. Apoiado nessa base segura, atraiu a cooperação de amplas massas de sírios de todas as etnias e religiões, e obteve, enfim, certa unidade nacional.

Certo, o regime sírio não corresponde aos ideais de “democracia”. Mas no Oriente Médio ninguém pauta a política por pesquisas de opinião pública, nem aceita palpites de marqueteiros. Ali não se concebe governo participativo ou consensual, que implica fraqueza, timidez, vacilação, amadorismo. Nem sequer se aceita a ideia abstrata de governo. O que vale é o governante, indivíduo que manda, assina em baixo e se responsabiliza pelo que faz. Só se aceita quem comanda, e quem comanda tem de ser forte, decidido e capaz. O governante é respeitado quando proporciona estabilidade e segurança ao povo. Foi o que o governo sírio garantiu nos últimos quarenta e tantos anos.

É claro que o regime cometeu erros nesse período, especialmente na administração da economia. Se tivesse imitado a China, atraindo a capacidade empresarial dos sírios da diáspora e controlando a explosão populacional, poderia ter-se saído melhor. Mas não adianta lamentar. A pergunta, no momento, é: há alternativa?

Sim, há. Vejam o caso do Iraque. Enquanto se escandaliza com 30 ou 40 mil mortes na Síria, a mídia finge ignorar os resultados da “democratização” imposta pelo Ocidente: mais de 1 milhão de mortos, 3 milhões de refugiados, uma nação dividida, destruída e sem futuro.

 

NR: O autor viveu e trabalhou no Oriente Médio de 1977 a 1985. Foi diretor  e  é membro do Conselho Superior da Câmara de Comércio Arabe-Brasileira.  Publicou, entre 1979 e 1994, periódicos informativos sobre o Mundo Árabe, e é autor de numerosos estudos sobre a região.” 

Palavras-chaves: primavera, síria, al-assad, bashar, árabe
A.C. Portinari Greggio
Economista


NR: O autor viveu e trabalhou no Oriente Médio de 1977 a 1985. Foi diretor e é membro do Conselho Superior da Câmara de Comércio Arabe-Brasileira. Publicou, entre 1979 e 1994, periódicos informativos sobre o Mundo Árabe, e é autor de numerosos estudos sobre a região.
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