Belo Horizonte, 16 de dezembro de 2018.
Principal / Precisamos de um Deng, mas teimamos com Mao
Por Hamilton Bonat
Precisamos de um Deng, mas teimamos com Mao
A visão ingênua de sua grandeza acabou sendo fatal para a China

Até 2025, a demanda por energia irá duplicar na China. Ela passará a consumir 25% da energia mundial. Pode parecer exagero, mas não é, principalmente se levarmos em conta que, durante 18 dos últimos 20 séculos, ela produziu uma parcela do PIB mundial maior do que qualquer sociedade ocidental.

Compreender a história da China não é nada fácil. Trata-se de uma civilização que se origina numa antiguidade tão remota, que são baldados os esforços para descobrir onde iniciou. Sabe-se que o “Império do Meio” entrou em declínio no século XIX. Em parte, por culpa da autoconfiança dos seus dirigentes, que o consideravam o centro da humanidade, portanto, imune às ameaças dos povos bárbaros, como chamavam os demais. Consideravam-na uma civilização tão sofisticada, que nada teria a aprender. As outras que fossem lá para copiá-la.

Entendia que todo o extremo oriente era seu. Mas os vizinhos, especialmente o Japão, os países do sudeste asiático, a Manchúria Exterior e a Mongólia Exterior, negavam-se a se subjugar. Ao norte, a Rússia representava uma terrível e histórica ameaça.

Sua visão sinocêntrica, até certo ponto ingênua, acabou sendo fatal. Enquanto os japoneses, que também consistiam uma sociedade fechada, por temor ao dragão que morava a apenas 200 km de sua pequena ilha, resolveram abrir-se e aprender com os estrangeiros, a China se manteria isolada durante séculos.

Quando sentiu que os europeus, a quem consideravam os bárbaros do leste, a ameaçavam, tentou empregar, mas sem sucesso, a estratégia de usar “bárbaros contra bárbaros”. Sofreu muito com a guerra do ópio e com as invasões japonesas. Não se conforma até hoje com a perda para a Rússia de ampla fatia da Mongólia Exterior, onde se situa o porto de Vladivostok.

A mesma Rússia ajudaria a derrubar o já combalido regime republicano, que, em 1911, havia substituído a última dinastia imperial. Após intensa guerra civil apoiada pelos soviéticos, o Partido Comunista Chinês chegaria ao poder em 1949. Os russos acreditaram terem, enfim, controlado a China, o que seria realidade até certo tempo. Mao Tsé Tung, aos poucos, foi percebendo que Nikita Kruschev se portava mais como o costumeiro ameaçador urso do que como um bom camarada.

Sob Mao, os chineses continuariam isolados dos bárbaros, até mesmo os de Moscou, que pretendiam impor sua hegemonia ideológica. Quando, em 1955, a União Soviética criou o Pacto de Varsóvia, Mao se recusou a tomar parte. A China não iria subordinar a defesa de seus interesses nacionais a uma coalizão. Ante a ameaça de milhões de tropas russas desdobradas ao longo da extensa fronteira norte, Mao acabaria se aproximando dos americanos.

Se no passado, usar “bárbaros contra bárbaros” havia sido uma estratégia, Mao, para se manter no poder, usaria chineses contra chineses. Lançando uns contra os outros, implantou o terror interno, até chegar à Revolução Cultural, uma verdadeira carnificina humana.

Deng Xiaoping, apesar de ter sido preso e exilado várias vezes, conseguiu sobreviver. Embora tivesse ideias diferentes, expressava-as reservadamente, pois era inteligente o bastante para não contrariar Mao em público. Esperou sua morte para chegar ao poder e implementar as reformas. Certa vez, conversando com cientistas australianos, disse que a China era um país pobre, necessitado de mudanças científicas e de aprendizado com países avançados, comentário sem precedentes para um líder chinês. Enviou milhões para estudar no exterior, a fim de criar as bases para a inovação tecnológica. Abrindo a China para o mundo e investindo em educação e pesquisa, uniu os chineses e criou as condições para que o país voltasse a ser uma potência.

 

Importante

  1. Lançando uns contra os outros, Mao implantou o terror interno, até chegar à Revolução Cultural, uma verdadeira carnificina humana.
  2. Continuamos impregnados pela ideia de Mao,enquanto o povo, mantido ignorante, agradece pelo pão que lhe é doado e aplaude os palhaços de um circo quase falido.

Palavras-chaves: China, energia, Japão
Hamilton Bonat
General da Reserva
http://www.bonat.com.br
Copyright © 2013-2015. Todos os direitos reservados.