Belo Horizonte, 20 de junho de 2019.
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Por Carlos Augusto Fernandes dos Santos
Elos perversos
“Não há corrente mais forte do que seu elo mais fraco”

A nação brasileira, especialmente o povo gaúcho, pranteia a morte de mais de duas centenas de jovens estudantes que, na madrugada de 27 de janeiro deste ano, comemoravam em uma casa noturna a aprovação em diferentes exames vestibulares realizados em Santa Maria/ RS, cidade conhecida no sul do país por abrigar um centro universitário de excelência. Aqueles jovens celebravam a vida  por triunfos e conquistas e encontraram a  morte súbita e  inclemente.

Por ter vivido na cidade uma quadra inesquecível de minha vida profissional, associo-me a imensa tristeza e desabafo ao colocar no papel a revolta e a perplexidade  que  me assaltam, em ser obrigado a ouvir pífias declarações  de diversas  “autoridades” e  de ter de  assistir a mais uma tragédia,  entre tantas,  que ocorrem em nosso país, consequência da maneira permissiva e negligente  em nossa cultura, de encaminhar e resolver questões substantivas, com a irresponsabilidade e a omissão do nosso conhecido “jeitinho” .

Fica no ar, entretanto, uma pergunta que precisa ser respondida: Quem inspecionou o local, e autorizou o  funcionamento daquela arapuca apelidada de boate? Não precisa ser especialista nem técnico experiente, para verificar a inadequação do indigitado local em abrigar uma pequena multidão - de mil ou mil e quinhentos indivíduos- numa área restrita com somente uma porta de  acesso. Quem forneceu o ALVARÁ de funcionamento? Pelo que se ouviu,  “tudo estava de acordo com as leis e as normas em vigor e será devidamente apurado”.

As ridículas declarações dos integrantes da cadeia de responsáveis (diretos e indiretos)  tangenciam a ironia e o sarcasmo: a Prefeitura (fiscais e o setor de engenharia), o Corpo de Bombeiros e os outros órgãos que tinham por tarefa a liberação do local, fornecem capengas explicações, na tentativa de justificar o injustificável.

A nossa indignação se potencializa quando tomamos conhecimento que:

  • uma autoridade judiciária, de qualquer instância,  fornece liminar , autorizando o funcionamento temporário de estabelecimentos, mesmo depois que a inspeção realizada neles contraindique essa concessão, sob a frágil alegação de cerceamento da liberdade de investir ou se corrompe, vendendo sentenças, em troca de dinheiro sujo e mal havido pelas máfias. Assim procedendo  ela colabora negativamente com a prática dessa cultura permissiva e irresponsável e denigre o poder judiciário;
  • uma  autoridade executiva,  ferindo os princípios da moralidade administrativa e da ética, se corrompe ou participa de negócios e tratativas escusas e governa como se o cargo fosse de sua propriedade, atendendo exclusivamente aos desejos do partido político ao qual pertence. Assim procedendo  ela fere a liturgia do cargo e o fragiliza;
  • parlamentares eleitos para representar o povo em suas legítimas aspirações, se deixem corromper ao participarem de negociatas com o intuito de atender aos apelos dos governos de ocasião ou seus interesses menores, conspurcando seus mandatos e desmoralizando a Instituição a que pertencem;
  • parlamentares do  Congresso Nacional, de qualquer das suas Casas (Senado e Câmara), aceitem ser chefiados por colegas cujo passado e histórias de vida não os recomendam para o exercício de tão dignificante tarefa ou reajam a decisões emanadas da mais alta corte do país, quando se posicionam contrários à condenação de seus pares, julgados culpados por crimes cometidos no exercício de suas atividades  políticas. Assim procedendo colaboram, ainda mais,  para desmoralizar  a  Instituição a que pertencem.

 

Infelizmente, há longos anos, a nação  convive com essa corrente perversa constituída  de  elos importantes, mas lastimavelmente frágeis.  Em todas as esferas do poder (Executivo, Legislativo ou Judiciário),  e  nos diferentes  âmbitos da federação (Federal, Estadual ou Municipal), constatamos, com irritante frequência, desvios de conduta, omissões e negligência de autoridades, revelando, assim, o baixo nível e a evidente falta de compromisso com princípios, e  com a solidez ética e cultural de nossa gente.

Enquanto isso, como sói acontecer e pelas declarações das nossas autoridades, as investigações caminham na busca de  um “ Bode Expiatório” palatável, capaz de  assumir a  culpa por toda  essa lastimável tragédia.

 

“Se a  porta foi  arrombada, coloquemos  uma  tranca de ferro”.

Palavras-chaves: Santa, Maria, tragédia, incêndio, boate, kiss
Carlos Augusto Fernandes dos Santos
General de Brigada
Foi Comandante da 6ª Brigada de Infantaria Blindada, com sede na cidade de ´Santa Maria
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